sábado, 12 de março de 2005

FALANDO SOBRE PAIXÃO - IV PARTE



HONDA TWISTER 250C - PRETA

Coisa gostosa tirar uma moto nova da concessionária...

Ele é linda, tecnologicamente moderna e... minha.

Minha Pretona chegou perto do Dia dos Namorados e ficou sendo presente do meu namoradão.

Depois de estacionada na garagem de casa eu olhava e não acreditava... Ela é linda!!! Pneu bem mais largo do que o da Stradinha e muito mais estabilidade nas curvas.

Só que tive um probleminha com ela no começo: falta-me uns 5cm de pernas e comecei um ciclo de quedas sempre parada ou parando, que foi bastante, digamos, doído para minhas ?almofadas naturais traseiras?.

Triscou, relou e eu TUM, no chão.

Eu ia parando e sempre escolhia o lado mais baixo da rua, cadê o chão? TUM!! Achei!

Lembro de chegar na garagem para sair, ver que era a Twister e não a Strada que me esperava e ter vontade de ir de ônibus. Mas afinal eu sou a filha do Ary ou não? Então vamos vencer esse medo também, e venci.

Em uns 6 meses troquei 2 manetes de freio e 1 de embreagem, mas com o tempo fui corrigindo isso. É que sou baixinha folgada e a moto inclinou 30º esquece porque é muito difícil voltar com ela para o prumo. Numa das vezes tive tanta raiva de cair que fiquei verde e forte como o Hulk e levantei a moto do chão sozinha. Mas se até uva passa, isso também passou um dia e eu parei de cair, aí comecei a curtir.

Depois de moto bem dominadinha na cidade era hora de voltar para a estrada. A diferença de torque dela pra 200c era brutal e isso me deixava mais confiante nas ultrapassagens.

Viajo com marido na garupa, mas gosto mesmo de vôos solos. E falando em marido, ele não tinha habilitação para motos até vir morar em Blumenau, sabe ?cumé qui é né?? Morávamos em cidades muito pequenas que mal tinham guardas de trânsito e isso fazia dele um cara folgado, mesmo porque você já viu médico ficar sendo parado em blitz? Chegando aqui a coisa mudou e o que mandava era a lei do cão: ?sem habilitação, sem pilotar?. Aí era legal, a gente viajava de moto e não tinha aquela pentelhação ?quem vai pilotando?? era só eu mesmo.

Não é que eu não goste que ele pilote, É QUE ODEIO SER GARUPA. Dói tudo, não me acerto ali atrás.

Foi um tempo interessante, eu pegava a moto e simplesmente saía, comecei a ter mais confiança em mim mesma e pegava pequenos percursos de estrada. É impressionante como me sinto em boa companhia quando estou de moto sozinha. Ela é um dos meus lugares preferidos para por a cabeça em ordem e como passei 2 anos precisando fazer isso, era na moto que eu relaxava.

Teve uma vez que combinamos de ir acampar no dia seguinte e eu já tinha arrumado parte das coisas do acampamento. A noite tivemos uma discussão e fiquei bastante aborrecida. Ele foi dormir e eu conectada na net, pensando, pensando... Quando foi umas 3h da manhã resolvi ir para o acampamento sozinha, de moto. Peguei minhas coisas, uma mochila, roupas de frio porque mesmo no verão estrada de madrugada é fria e deixei um bilhete avisando onde eu estaria.

Acho que foi minha melhor viagem. Sem a mínima pressa, optando sempre pelos caminhos mais longos, friozinho, mas não muito, as estrelas no céu e eu na estrada. Fui cantando mentalmente, pensando na vida e em como dar uma arrumada nela. Só quando entrei na BR umas 4 da manhã é que deu um friozinho na barriga. Ela é meio escura para tanta carreta e tão pouca moto, mas nada que muita atenção não detone esse medo.

Num momento olhei pelo retrovisor e vi mais um farol solitário e isso me deu uma sensação de proteção, tinha um outro louco na estrada de madrugada, e também sozinho. Só que com uma moto bem maior do que a minha, mas também sem participar de nenhum rally, ia uns 20 km/h a mais do que eu, me passou sem pressa e seguiu seu caminho.

Eu conhecia o caminho e já tinha estado acampada ali. O camping fica num lugar bonito com uma escadaria na parte de trás que dá para uma rua de terra e a praia. Quando eu cheguei, ele ainda estava fechado, era por volta das 5 da manhã. Parei a moto em cima da calçada, peguei na bolsa uma latinha de cerveja, abri, acendi um cigarro e fiquei sentada na escadaria olhando aquele mar escuro. Não se via nada no mar, eu apenas sabia que ele estava ali. Era uma espécie de solitário acompanhado, pois eu sabia que o mar estava na minha frente e ele sabia que eu tinha vencido alguns medos para estar ali sozinha, de madrugada, somente com minha companheira.

Quando olhei para o céu vi que estava começando a arroxear, era o rei sol mandando avisar que sua beleza e seu esplendor estavam para chegar, e que mais um dia estava começando. Um dia comum, onde pessoas comuns daqui a pouco estariam começando a acordar, espalhar cheiro de café recém coado pelo mundo, tomariam seu banho, ou não, e iriam para o trabalho. Era um dia comum para muitas pessoas, para mim não. Naquela madrugada venci mais um pouco meus medos, transpus mais um muro, viajei sozinha de moto numa madrugada que pra mim foi quase tão feliz como ganhar flor roubada. Para muita gente isso pode ser um fato banal, mas nasci numa época que mulheres não podiam fazer coisas ?de homens? e sempre fui rebelde. Para mim não era um fato banal. Deixei marido e filhos dormindo e saí sozinha, de moto, pela madrugada afora. O dia ia amanhecendo no seu ritmo lento e eu me amando, sentindo orgulho de mim mesma, me sentindo feliz, mesmo sabendo que ia ter cara feia e puxões de orelha quando a galera chegasse no camping.

Quando o camping abriu, eu achei um banco de madeira e dormi o sono que os guerreiros dormem depois de uma batalha bem sucedida.

2 comentários, falta o seu:

Fênix disse...

Você é minha ídola... amei seu post.. me identifico completamente... adoro motos desde pequenina mas ainda não pude comprar a minha, qualquer hora faço uma loucura e me endivido toda para acabar com esse sofrimento. Beijos, Fênix.

Lua Nua disse...

Se sou sua ídola, saiba ser também uma guerreira, te garanto que vale a pena. Não lembro das coisas que por covardia deixei de fazer, mas lembro das vezes que fui ousada e venci. Vambora menina!!!! O que está esperando para ter a sua moto? E se algum dia te perguntarem se não tem medo de morrer na moto, responda que viver uma vida medíocre mata muito mais. Beijos e da próxima vez deixe um e-mail pra gente se falar ok? Beijos de novo.

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